Edição 2 · Quinta, 5 de novembro de 2026 · 4 min de leitura

Oi. O Copom parou de cortar o juro. E os economistas passaram a esperar juro alto por mais tempo.

01 · Juros

O juro parou de cair

O Copom (o comitê do BC que define a taxa básica de juros) manteve a Selic em 13,75% ao ano ontem à noite. É a primeira pausa depois de cinco cortes seguidos.

Por que importa: a Selic puxa o rendimento da sua aplicação e o juro do crédito da sua empresa.

Em números:

  • 15% ao ano em janeiro. Depois, cinco cortes de 0,25 ponto, de março a setembro.

  • 12,5% no fim de 2027. É a Selic esperada no Focus (a pesquisa semanal do BC com economistas) de 30/10. Uma semana antes, 11,75%.

  • 4,76% de inflação esperada para 2027. Acima do teto da meta, de 4,5%. Uma semana antes, 4,34%.

Nas entrelinhas: na última semana, a inflação esperada para 2027 saltou de 4,34% para 4,76%. A Selic esperada subiu junto.

Sim, mas: Focus é expectativa e pode mudar de uma semana para outra. Há quatro semanas, a Selic esperada para o fim de 2027 era 12%.

02 · O impacto

Juro que demora a cair: bom para quem aplica, ruim para quem deve

Quem aplica no CDI ganha mais do que ganharia com o juro em queda. Quem deve no CDI paga mais.

Por que isso importa pra você

O CDI é a taxa do "100% do CDI" do banco e anda colado na Selic. Para ter a medida, cada ponto de Selic vale, durante um ano:

  • R$ 500 mil aplicados a 100% do CDI: uns R$ 4,1 mil a mais, já descontado o imposto.

  • R$ 1 milhão de dívida da empresa no CDI: uns R$ 10 mil a mais de juros.

Nas entrelinhas: o crédito da empresa custa bem mais que a Selic. Em setembro, o capital de giro saiu, em média, a 24,3% ao ano.

Na sua conta: o cheque especial custou 139% ao ano em setembro, na média. Dá 7,5% ao mês. O teto do Conselho Monetário Nacional é 8% ao mês.

Sim, mas: juro alto por mais tempo não quer dizer fim dos cortes. No Focus, a Selic esperada é 13,5% no fim de 2026 e 12,5% no fim de 2027.

Na prática: a dívida no CDI demora mais a ficar barata. A de taxa fixa não muda até ser renovada. O número que importa é quanto da sua dívida, e da dívida da empresa, segue o CDI.

03 · Pingado explica

Expectativa de inflação vira inflação?

Em parte. Nos experimentos com empresas, cada ponto a mais de inflação esperada vira de 0,2 a 0,3 ponto no preço, quando a inflação é baixa ou moderada.

O motivo, pela teoria: quem espera custo e salário mais altos reajusta o preço antes, para não perder margem. Quando muitas empresas fazem isso ao mesmo tempo, a inflação esperada aparece no preço.

Em números: quando a empresa passa a esperar 1 ponto a mais de inflação, o preço dela sobe:

  • Itália, 2012 a 2019, inflação baixa: 0,2 ponto no preço cobrado. O efeito some em um ano.

  • Nova Zelândia, 2017 e 2018, inflação baixa: sem efeito claro.

  • Suíça, 2022 e 2023, inflação perto de 3%: 0,25 ponto no preço planejado.

  • Zona do euro, 2023, inflação entre 5,5% e 7%: 0,3 ponto no preço planejado.

  • Turquia, 2024, inflação perto de 75%: 0,55 ponto no preço esperado.

Nas entrelinhas: o que mais muda é emprego, não preço. Na Itália e na Turquia, as empresas que passaram a esperar mais inflação contrataram menos.

Sim, mas: quase todos medem o preço que a empresa planeja cobrar, não o que ela cobrou. O repasse maior com inflação alta vem da comparação entre estudos, não de um estudo só. E nenhum foi feito no Brasil.

Por que importa: é por isso que o BC acompanha a inflação esperada. Uma parte dela vira preço.

04 · Também rolou

Aluguel
O IGP-M esperado para 2026 subiu para 6,05%, no mesmo Focus. Uma semana antes, 5,61%. O IGP-M é o índice de preços da FGV usado em muito contrato de aluguel. Por que importa: é mais que o IPCA esperado para 2026, de 5,22%. Para o aluguel reajustado pelo IGP-M, a expectativa é de reajuste maior.

O que observar

  • Precisa fazer algo hoje? Não.

  • Segunda, 9/11: novo Focus, o primeiro depois da pausa.

Os números do seu dinheiro · o que você recebe e o que você paga

  • CDI: 13,65% ao ano, antes do imposto, em 3/11. Anda um pouco abaixo da Selic.

  • Poupança: 0,67% no mês, ou 8,4% ao ano, sem imposto, para depósitos feitos no dia 3.

  • Tesouro IPCA+ 2035: inflação mais 7,88% ao ano, para quem comprou em 30/10.

  • Dólar: R$ 5,48, a cotação de referência do BC (a PTAX) de 4/11.

  • Capital de giro: 24,3% ao ano. Cheque especial: 139% ao ano. Médias de setembro.

Piada ruim do dia

O cheque especial tem esse nome porque o tratamento especial é todo do banco.

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Informação, não recomendação de investimento. Pingado é uma carta para quem quer saber mais de economia e cuidar do próprio dinheiro, feita pela Assis. É informação para você decidir com o seu assessor ou sozinho.

Sobre as contas: são aproximadas e servem para comparar, não para prever. Premissas: um ponto de Selic a mais por 12 meses, repassado inteiro ao CDI; IR de 17,5% na aplicação (de 361 a 720 dias); juros da dívida antes do imposto da empresa; sem tarifas nem IOF.

Fontes desta edição, com a data de referência dos dados. Todas primárias.

  1. Banco Central: meta Selic, série 432 do SGS: 15,00% até 18/03; 14,75% em 19/03; 14,50% em 30/04; 14,25% em 18/06; 14,00% em 6/08; 13,75% em 17/09, mantida em 4/11. Comunicado do Copom de 4/11.

  2. Banco Central: boletim Focus de 30/10, publicado em 3/11. Medianas: Selic no fim de 2026, 13,5% (13,25% uma semana antes); Selic no fim de 2027, 12,5% (11,75% uma semana antes, 12% quatro semanas antes); IPCA de 2026, 5,22%; IPCA de 2027, 4,76% (4,34% uma semana antes); IGP-M de 2026, 6,05% (5,61% uma semana antes).

  3. Banco Central: meta de inflação definida pelo Conselho Monetário Nacional: 3%, com tolerância até 4,5%.

  4. Banco Central: taxa DI (CDI) de 3/11, série 12 do SGS, 0,050788% ao dia; 13,65% ao ano em 252 dias úteis (conta nossa).

  5. Banco Central: taxas médias de setembro de 2026, recursos livres: capital de giro total, série 20725, 24,30% ao ano; cheque especial de pessoa física, série 20741, 139,02% ao ano (7,53% ao mês, conta nossa).

  6. Resolução CMN 4.765/2019: art. 1 e art. 3, juros do cheque especial limitados a 8% ao mês para pessoas naturais e MEI.

  7. Lei 11.033/2004: IR de 17,5% na renda fixa de 361 a 720 dias.

  8. Coibion, Gorodnichenko e Ropele: Quarterly Journal of Economics, 2020. Experimento com empresas italianas, 2012 a 2019: preço praticado 0,2 ponto maior um trimestre depois, efeito ausente após um ano; emprego 0,7% menor em 12 meses.

  9. Coibion, Gorodnichenko, Kumar e Ryngaert: Quarterly Journal of Economics, 2021. Experimento com 1.025 empresas da Nova Zelândia, entre o fim de 2017 e meados de 2018: sem efeito significativo em preços e salários.

  10. Banco Central Europeu, Working Paper 2949: experimento com 5.773 empresas de 12 países, junho de 2023: repasse de cerca de 0,3 para o preço planejado.

  11. Abberger, Funk, Lamla, Lein e Siegrist: working paper, 2026. Experimento com empresas suíças, novembro de 2022 a janeiro de 2023, inflação perto de 3%: repasse de cerca de 0,25 da inflação esperada de curto prazo para o preço planejado.

  12. Eurostat: inflação anual da zona do euro de 5,5% em junho de 2023 (7,0% em abril, número mostrado às empresas no experimento).

  13. Banco Central da Turquia, Working Paper 25/12: Akarsu, Aktuğ e Torun, 2025. Experimento com cerca de 1.200 indústrias, maio de 2024, inflação perto de 75%: repasse de cerca de 0,55 da inflação esperada para o preço esperado; emprego menor com inflação esperada maior.

  14. Banco Central: poupança para depósitos com aniversário em 3/11, série 195 do SGS, 0,6703% no período; 8,35% ao ano (conta nossa).

  15. Tesouro Nacional: Tesouro IPCA+ 2035, taxa de compra da manhã de 30/10, 7,88%, último dado da base consultada em 4/11.

  16. Banco Central: dólar PTAX de venda de 4/11, série 1 do SGS, R$ 5,4778.

  17. Contas nossas: R$ 500 mil × 1 ponto × (1 menos 17,5%) = R$ 4.125; R$ 1 milhão × 1 ponto = R$ 10.000; cheque especial (2,3902 elevado a 1/12) menos 1 = 7,53% ao mês.

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